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quinta-feira, dezembro 04, 2008

Guerra no Iraque

Quando o Iraque ainda não era o Iraque, ali nasceram as primeiras palavras escritas.

Parecem pegadas de pássaros. Mãos de mestre as desenharam, com varinhas afiadas, na argila.

O fogo, que havia cozido a argila, as guardou. O fogo, que aniquila e salva, mata e dá vida: como os deuses, como nós. Graças ao fogo, as tabuinhas de barro continuam nos contando, até hoje, o que tinha sido contado faz milhares de anos nessa terra entre dois rios.

Em nosso tempo, George W. Bush, talvez convencido de que a escrita tinha sido inventada no Texas, lançou com alegre impunidade uma guerra de extermínio contra o Iraque. Houve milhares e milhares de vítimas, e não apenas gente de carne e osso. Muita memória também foi assassinada.

Numerosas tabuinhas de barro, história viva, foram roubadas ou destroçadas pelos bombardeios.

Uma das tabuinhas dizia:

Somos pó e nada.
Tudo que fazemos não é mais que vento.

(Fundação da Escrita, do livro Espelhos - Uma história quase universal, de Eduardo Galeano.
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Eu insisto em mostrar textos do Galeano aqui. Este é do mais novo livro dele, sendo minha resposta às notícias que recebi hoje:



Valeu, Roger, pela indicação das notícias.

quinta-feira, setembro 25, 2008

David Lynch

Em tempo: a Revista da Livraria Cultura deste mês fez uma reportagem sobre David Lynch, que esteve em agosto nesta livraria em São Paulo para uma palestra sobre seu novo livro intitulado "Em águas profundas" ou "Catching the Big Fish", título original em inglês. Vale a pena ler a matéria na íntegra.

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Entre a parcela da população que ama ou odeia os filmes e idéias de David Lynch, estou localizado na primeira. Não posso afirmar que entendo os filmes dele na íntegra, mas o interessante é que ele explora um conjunto de sensações e gera uma série de dúvidas. Interessante é que os filmes que geram mais dúvidas são os que permanecem em nossa memória. Alguém se esqueceu de 2001, por exemplo?

quarta-feira, agosto 13, 2008

O sistema / 3

Quem não banca o vivo, acaba morto. Você é obrigado a ser fodedor ou fodido, mentidor ou mentido. Tempos de o que me importa, de o que se há de fazer, do é melhor não se meter, do salve-se quem puder. Tempo dos trapaceiros: a produção não rende, a criação não serve, o trabalho não vale.

No rio da Prata, chamamos o coração de bobo. E não porque se apaixona: o chamamos de bobo porque trabalha muito.

(Eduardo Galeano, O livro dos abraços)

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Por que continuo postando os textos deste livro? Simples, este livro foi escrito por este excelente escritor uruguaio, em 1989. Coincidentemente a data em que foram feitas as primeiras eleições presidenciais abertas depois da ditadura no Brasil.

Desde lá, estes textos ainda continuam atuais.

terça-feira, agosto 12, 2008

Os numerinhos e as pessoas

Onde se recebe a Renda per Capita? Tem muito morto de fome querendo saber.

Em nossas terras, os numerinhos têm melhor sorte do que as pessoas. Quantos vão bem quando a economia vai bem? Quantos se desenvolvem com o desenvolvimento?

Em Cuba, a Revolução triunfou no ano mais próspero de toda história econômica da ilha.

Na América Central, as estatísticas sorriam e riam quanto mais fodidas e desesperadas estavam as pessoas. Nas décadas de 50, de 60, de 70, anos atormentados, tempos turbulentos, a América Central exibia os índices de crescimento econômico mais altos do mundo e o maior desenvolvimento regional da história humana.

Na Colômbia, os rios de sangue cruzam os rios de ouro. Esplendores da economia, anos de dinheiro fácil: em plena euforia, o país produz cocaína, café e crimes em quantidades enlouquecidas.

(Eduardo Galeano, O Livro dos Abraços)

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

A uva e o vinho

Um homem dos vinhedos falou, em agonia, junto ao ouvido de Marcela.
Antes de morrer, revelou a ela o segredo:
- A uva - sussurou - é feita de vinho.
Marcela Pérez-Silva me contou isso, e eu pensei: se a uva é feita de vinho, talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é.

(Eduardo Galeano, O Livro dos Abraços)

sexta-feira, janeiro 25, 2008

A linguagem da arte

Chinolope vendia jornais e engraxava sapatos em Havana. Para deixar de ser pobre, foi-se embora para Nova York.
Lá, alguém deu de presente a ele uma máquina de fotografia. Chinolope nunca tinha segurado uma Câmera nas mãos, mas disseram a ele que era fácil:
- Você olha por aqui e aperta ali.
E ele começou a andar pelas ruas. Tinha andado pouco quando escutou tiros e se meteu num barbeiro e levantou a câmera e olhou por aqui e apertou ali.
Na barbearia tinham baleado o gângster Joe Anastasia, que estava fazendo a barba, e aquela foi a primeira foto da vida profissional de Chinolope.
Pagaram uma fortuna por ela. A foto era uma façanha. Chinolope tinha conseguido fotografar a morte. A morte estava ali: não no morto, nem no matador. A morte estava na cara do barbeiro que a viu.

(Eduardo Galeano, O Livro dos Abraços)